Sinto-me um poço de confissões.
Jenny suspirava:
"sei lá de que cor me pintar hoje.
meus olhos tão ardidos e cansados que talvez sejam incapazes de distinguir preto e branco.
De volta à mesma sala branca e fria e os olhos vidrados em qualquer distração.
E, como sempre, ela depende de seres-humanos. Falhos, relapsos, doces, secos e cortantes.
A cafeína me mantém acordada. Mas parece que tanta coisa em mim já disse boa noite, há tanto tempo.
Se pudesse, me desligava por uma semana. Talvez tudo melhore se eu não estiver por perto. Talvez eu perca a memória, confunda com sonhos, ou simplesmente tudo passe. Tudo.
Talvez desfaça esse mesclado de agonia e vontade. Saudade-s.
Já não sei chegar ao desfecho com a cura pra aflição que me traz a essas palavras que eu sempre vomito. Ela costumava se soltar de mim quando a conseguia traduzir. Triste fim."
30 de jun. de 2010
27 de jun. de 2010
13 de fevereiro de 2065
Olhava-se para o céu em busca de paz. Hoje, evita-se por medo.
Tão arranhado, pobre céu. Invadido por todos esses empilhados gigantes de concreto recheado de salas-frigorífico: brancas, frias e cheias de pessoas que já passaram pelo abate. A maioria desses freezers serve pra solidão de gente importante: cada um em uma sala, com um relógio quebrado na parede.
As esquinas são verticais. Mas ninguém arrisca olhar de baixo o cruzamento e perder sua rota. Não está no programa.
É tudo de um cinza que contamina; você pode notar pela expressão maquinal que carrega o rosto dos que te cruzam o caminho. Todos passam com um destino traçado, em função de algo, servindo essa gigantez que os cerca. Nos cerca.
Esses olhos fundos são os únicos indícios de vida no meio disso tudo. Nosso caminho é calçado; e se encontramos uma flor no percurso, é artifício. E seu plano de fundo, o concreto. Ameaçando engolir tudo.
O único silêncio vem dos homens. Bipes e motores compõem a sinfonia desritmada que ecoa nos becos e atormenta o sono dos indigentes, desprovidos de paredes à prova de som.
Nos bueiros corre a esperança por entre os restos radioativos que despejam nossos corpos no fim do dia. Disputamos hegemonia até com os ratos. E vencemos.
Mas não passamos de seres tão pequenos quanto os ratos eram para nós. Habitando uma imensidão de pedra e somente sobrevivendo. Agindo conforme o ritmo que permite o funcionamento dessa câmara de oxigênio que dominamos.
A realidade aqui é redimir-se a mais uma peça dessa máquina gigante. E é inútil resistir. Já nascemos programados a ser pequenos demais.
Tão arranhado, pobre céu. Invadido por todos esses empilhados gigantes de concreto recheado de salas-frigorífico: brancas, frias e cheias de pessoas que já passaram pelo abate. A maioria desses freezers serve pra solidão de gente importante: cada um em uma sala, com um relógio quebrado na parede.
As esquinas são verticais. Mas ninguém arrisca olhar de baixo o cruzamento e perder sua rota. Não está no programa.
É tudo de um cinza que contamina; você pode notar pela expressão maquinal que carrega o rosto dos que te cruzam o caminho. Todos passam com um destino traçado, em função de algo, servindo essa gigantez que os cerca. Nos cerca.
Esses olhos fundos são os únicos indícios de vida no meio disso tudo. Nosso caminho é calçado; e se encontramos uma flor no percurso, é artifício. E seu plano de fundo, o concreto. Ameaçando engolir tudo.
O único silêncio vem dos homens. Bipes e motores compõem a sinfonia desritmada que ecoa nos becos e atormenta o sono dos indigentes, desprovidos de paredes à prova de som.
Nos bueiros corre a esperança por entre os restos radioativos que despejam nossos corpos no fim do dia. Disputamos hegemonia até com os ratos. E vencemos.
Mas não passamos de seres tão pequenos quanto os ratos eram para nós. Habitando uma imensidão de pedra e somente sobrevivendo. Agindo conforme o ritmo que permite o funcionamento dessa câmara de oxigênio que dominamos.
A realidade aqui é redimir-se a mais uma peça dessa máquina gigante. E é inútil resistir. Já nascemos programados a ser pequenos demais.
9 de jun. de 2010
o dia é a noite que mente.
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