23 de dez. de 2010

Marta e o sucesso do parque

Fones de ouvido quase estourando. Na boca um chiclet, patins nos pés. Deslizando e cantando e mascando e embalando e cantando e mascando e mascando... Quase ainda manhã de sábado, as pessoas caminham pelo parque como de costume, com seus bones só de aba, garrafinhas de água na mão, pochetes esquisitas, shorts sport, tênis confortáveis e semblantes de pseudo-saudáveis-blasés ou sofridos fora de forma; andando alguns tantos pra aliviar a consciência depois de ter comido aquele BigMac com MilkShake de Ovomaltine na quarta-feira, como de costume.
Marta senta num dos bancos e observa o movimento. Os rostos são todos bem diferentes, normal da espécie humana, mas há algo de tão padrão na maioria, tão igual e seguido à risca, sem propósito, talvez sem se darem conta, algo que os torna uno, algo que fazem questão de continuar cultivando pra que se tornem cada vez mais IMpessoais: algo como não ter muito de pessoal, de particular, de personalidade, de diferente... Tentar incorporar um estereótipo que faz sucesso com o mundo pra ter mais chances de fazer sucesso também, ainda que se trate de algo cada vez mais 'casca'. Incorporar um estereótipo que todo mundo conheça, pra ser, de certa forma, pré-conhecido. Ser algo simples pras pessoas não cansarem de você, pra ter certeza que suas idéias vão de acordo com as de todo mundo e por isso não vai ser criticado. Pra não ter de defender algo diferente e ser constestado e não ser aceito. Medo. Medo de não fazer parte de um grupo grande, pra se sentir mais seguro, tipo cardume de peixes, manada de elefantes, mesmo que pra isso tenha que negar vontades próprias. Reproduz-se então o "sucesso-social-padronizado": consumir as mesmas roupas, comidas, shampoos, bonés só de aba, shorts sports; frequentar os lugares onde vendam essas coisas pra exibí-las aos outros humaninhos que certamente comprarão e se sentirão muito felizes por tê-las iguais a muitos outros, e quem os inspirou, depois de ser inspirado pelo outdoor, também vai ficar felizíssimo por ter feito sucesso com seu rayban quadriculado conseguindo disseminar seu uso. Você consome o sucesso e faz parte dele, tem seu lugar garantido nessa sociedade.
Marta olha pra seu short jeanz que antes era uma calça, cortado com faca, sem bainha. Seu patins conseguido num brechó, o walkman (quem ainda usa walkman?), o chiclet já não tem gosto. Embala as rodinhas e abandona o banco e seus pensamentos sem sucesso, feliz por não ser popular, por não ter um rayban nem um short sport pra caminhar no parque, feliz por parar no parque e pensar, ao invés de contar os passos enquanto no inconsciente ecoa a musiquinha irritante daquela propaganda de porcarias comestíveis de sucesso.

12 de nov. de 2010

http://www.fotolog.com.br/ictioide

11 de jul. de 2010

lá longe eu vejo o laço
pendurado no vestido da cigana
quase coberto pelo cabelo embaraçado
que balança no ritmo da perna manca

e aquele laço maldito
não vou mais desfazer
embebedo o vento quando digo
que foi tão ruim perder você

e parece que toda lona desbota
quanto menos vejo a cigana
correndo de mim toda torta
fugindo da vida mundana

de todos os aplausos mudos
será que nenhum te faz falta
quando balanças o vestido curto
e levanta a poeira da estrada

não olha pra trás nem pra ver
de longe os olhos que molhou
cigana maldita que eu amei
agora quer me matar de dor

ninguém mais vai ler na minha mão
os sonhos sujos que planejei
esse tempo todo em vão

vai, cigana imunda
deixa esse peito manchar o chão
com o vermelho desbotado
que depois vira marrom.

5 de jul. de 2010

"Olha lá, a agonia jogar serpentinas

quase cinzas"
(...)

[Banda Alice]

30 de jun. de 2010

Sinto-me um poço de confissões.
Jenny suspirava:

"sei lá de que cor me pintar hoje.
meus olhos tão ardidos e cansados que talvez sejam incapazes de distinguir preto e branco.
De volta à mesma sala branca e fria e os olhos vidrados em qualquer distração.
E, como sempre, ela depende de seres-humanos. Falhos, relapsos, doces, secos e cortantes.
A cafeína me mantém acordada. Mas parece que tanta coisa em mim já disse boa noite, há tanto tempo.
Se pudesse, me desligava por uma semana. Talvez tudo melhore se eu não estiver por perto. Talvez eu perca a memória, confunda com sonhos, ou simplesmente tudo passe. Tudo.
Talvez desfaça esse mesclado de agonia e vontade. Saudade-s.
Já não sei chegar ao desfecho com a cura pra aflição que me traz a essas palavras que eu sempre vomito. Ela costumava se soltar de mim quando a conseguia traduzir. Triste fim."

27 de jun. de 2010

13 de fevereiro de 2065

Olhava-se para o céu em busca de paz. Hoje, evita-se por medo.
Tão arranhado, pobre céu. Invadido por todos esses empilhados gigantes de concreto recheado de salas-frigorífico: brancas, frias e cheias de pessoas que já passaram pelo abate. A maioria desses freezers serve pra solidão de gente importante: cada um em uma sala, com um relógio quebrado na parede.
As esquinas são verticais. Mas ninguém arrisca olhar de baixo o cruzamento e perder sua rota. Não está no programa.
É tudo de um cinza que contamina; você pode notar pela expressão maquinal que carrega o rosto dos que te cruzam o caminho. Todos passam com um destino traçado, em função de algo, servindo essa gigantez que os cerca. Nos cerca.
Esses olhos fundos são os únicos indícios de vida no meio disso tudo. Nosso caminho é calçado; e se encontramos uma flor no percurso, é artifício. E seu plano de fundo, o concreto. Ameaçando engolir tudo.
O único silêncio vem dos homens. Bipes e motores compõem a sinfonia desritmada que ecoa nos becos e atormenta o sono dos indigentes, desprovidos de paredes à prova de som.
Nos bueiros corre a esperança por entre os restos radioativos que despejam nossos corpos no fim do dia. Disputamos hegemonia até com os ratos. E vencemos.
Mas não passamos de seres tão pequenos quanto os ratos eram para nós. Habitando uma imensidão de pedra e somente sobrevivendo. Agindo conforme o ritmo que permite o funcionamento dessa câmara de oxigênio que dominamos.
A realidade aqui é redimir-se a mais uma peça dessa máquina gigante. E é inútil resistir. Já nascemos programados a ser pequenos demais.

that is me!

quantos passos precisamos pra nos impulsionar?
e quantos pregos cravados pra parar de vez?

Não sou eu que tenho pressa.
O mundo é que gira lento demais.

9 de jun. de 2010

a limpa.

o dia é a noite que mente.


Era uma vez um passado com sorrisos ritmados. É uma vez -duas, cinco, cem- um presente de risos sem dentes, onde cada vez que os olhos se espremem perto uns dos outros é pra fingir que não se viram, pra nao assumir que todo dia é uma noite que mente.
Só existe lá atrás, nem tente.

10 de mai. de 2010

fragmento de devaneio

"quando imersos no fel, muito estrago se faz com um pingo de mel. E é no sorriso que nos parece mais doce onde encontramos o veneno.
Tudo que faz sentir a gente inventa.Nunca é claro enquanto é tempo.
Sua capacidade de enganar foi o que te fez.
E por trás das suas atitudes genéricas, o que é que resta?"

fragmento¹ de devaneio

ponto.

falta tempero no meu dia.

até o diferente traz um gole de monotonia.
Sei que não estacionei, na espera de uma chuva de alegria enquanto o seco da boca faz perdurar a amargura. Tenho tentado, todos os dias. E não em vão. Talvez se não contrariasse a lei de Murphy o céu de outono não seria ainda tão bonito.
Mas e quando parece que esgotaram-se as alternativas? já nem sei qual é o outro lado da rua pra fazer um caminho diferente, qual é o ônibus de sempre pra não encarar os mesmos pares de olhos. Cansei do gosto de todos meus amores, cansei das lembranças daqueles que não me deram tempo de enjoar. Cansei das minhas vontades insaciadas, cansei das paredes brancas e frias.
E aí? grande merda neh.
Gosto ainda de existir, nem que for pra sentir meu corpo anestesiado. E se viver for essa eterna espera por algo que faça sentir, acho que vou ter que inventar outro verbo pra explicar o passar dos dias no ritmo que alterna entre claro e escuro, junto com o ar que infla o peito e o coração que ainda faz aquele barulhinho discreto.

sabor de fruta mordida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia

E algum veneno anti monotonia
E algum remédio que me dê alegria
E algum remédio que me dê alegria

28 de abr. de 2010

monólogo de um adultério

deixa eu te sussurrar uma coisa no ouvido:
ontem não faz tanto tempo assim.

Pela manhã foi tão bonito. O sol nascia, a brisa ainda gelada que sobreviveu da madrugada sendo aquecida pelos primeiros raios... Já no almoço te acertava em cheio e queimava a pele o sol da zenite. Ah, meu bem... pela tarde tomavas o café pra não fazer desfeita, disfarçando já ter comido na rua sem passar direto pela mesa posta. Pela noite não te via mais... Tão distante, teus olhos em outro céu que não aquele pra onde apontavam. Desprezei teu querer cerrar os lábios pra não dizer que a madrugada é que te faz bem, e já era noite de novo. Odiei você planejar sua próxima madrugada na nossa tarde, tomar aquele café com a barriga cheia. E ainda assim sorrir pra mim.
E ainda assim sorrir.
E hoje você me fita como quem diz que sente falta da maldita brisa.
Vá pro inferno com aquele café cheio de açucar que você tomou na rua.

~[Maria.]

23 de abr. de 2010

Eu não sei porquê.

hoje nada parece querer atingir o meu sorriso.
Sensação estranha, diferente. Sem peso nos joelhos...
Como se eu estivesse na calmaria de uma bolha enquanto o mundo se destrói lá fora. Nada quebra o silêncio aqui.
Não sei que parte de mim perdi por aí - e nem quero saber - sinto bem melhor assim.
Até senti medo, por um breve momento - tempo de um devaneio passageiro - pensando ser isso um tipo de transe que se tem quando se sabe que vai morrer. Não aceitei a idéia. Perturbava a calmaria.
Meus braços tremem. Não sei se do frio que espelham essas paredes cor de gelo ou se existe algum outro motivo pra isso. Não sinto frio.
Sinto um abraço, mesmo sem ninguém por perto. Em todos os sentidos.
Sinto cheiro de flor, sinto cheiro de dia ensolarado, mesmo com o tempo feio. E um gosto doce na boca.
Não usei nenhuma droga. Dessa vez, não.
Ostento no rosto um sorriso leve, como fosse espelho do meu todo.
Um pós-orgasmo-sem-fim. Tão igual que ainda sinto os espamos das minhas pernas.
Um dia cinza sem gosto de cinza. Chove, venta, escurece o céu... e isso tudo me faz bem.
Não sei se acordo amanhã sentindo o mesmo.
Sei que vou lembrar de um dia na minha vida em que o incômodo não se fez presente. Existi confortável, e talvez seja por isso que muitas pessoas gastam seus sorrisos por aí, e eu nunca compreendi. Mas sinto como se fosse só meu, inexplicável por completo e ninguém mais fosse capaz de sentir assim.
Vontade de acordar amanhã, e depois, só pra sentir igual.
Sem ninguém, nem nada.

12 de abr. de 2010

Carta -suidaci- do conto - sem nome ainda -

Minha Amada:

(...)


Dio suici.

Soui dici.

Dusi icío.

Cuido isi.

Dois uicí.

Dois ciuí.

Sici do iu.

11 de abr. de 2010

- Tick tack tick tack tick tack - cantarola docemente Amanda, com a intenção de tirar da cama seu amado.
- A gente vai se atrasar pro ensaio. Dois espetáculos hoje e temos que ver o que há de errado com seu trapézio!
Amanda escova os dentes, arruma o cabelo; com um passo curto está na cozinha, fazendo o café. Da pia vê a cama - típica kitinet - e ele ainda não se levantou. Vai abrir a geladeira e se depara com um bilhete preso a um ímã. Lê em voz alta:
- "Minha Amada" - já te falei que adoro quando você se declara pra mim? Preciso ouvir essas coisas de vez em quando, nossa vida é tão corrida... - se debruça no balcão entre a cozinha e o 'quarto' - Nos dividimos em cem pra dar conta de sustentar essa vida que a gente escolheu. Mas me faz feliz, sabia?
Volta ao bilhete:

[depois termino]

7 de abr. de 2010

Verônica decidiu e morreu pela décima sétima vez

em seu décimo sétimo outono.
sem remorsos, sem legados, sem fome, sem frio.
De dor, rancor. Sozinha.
Na meia luz da sala de estar. Entre os livros do seu pai.
Pensando ser errado dizer que Verônica morreu se ela nem
estava ali. "Seu corpo gélido deixou de respirar", seria
o mais certo a se dizer.
Morte 'assassina' que se deu aos poucos. Primeiro persona,
ideais; em seguida amigos, logo depois o amante, e, por
fim, asfixia seu corpo álgido.
"Vai ver, morreu de vez". Mas seus discípulos ainda esperam
a ressureição ao terceiro dia, a subida aos céus e o jantar
a dois com deus pai todo poderoso.
Mas a cor esvaeceu há tempos... Nem mais o vermelho das unhas
durava mais de um dia. O verde dos olhos já não mais refletia
o prisma. Nem sequer o abraço ansiado por tantas luas aquecia
seu corpo frio. Já sem pulso. Morreu de vez sem nada de mais
matar que já não tivesse morrido antes, vítima de causa qualquer.
Agora jaz, (s)em paz.
Há de servir como adubo às margaridas, quem sabe. Lindos lírios ou
pés de cegueira. Sendo assim se não estéril. Mas, do contrário,
ao menos servirá de café da manhã aos vermes. Perpetuando livre
de ter morrido em vão.
Descansando (s)em paz.

29 de mar. de 2010

Amanda says:

Uma amiga se queixou da cor do céu. "Dia cinza".
Grande merda o tempo feio. Não difere em nada além do risco de se molhar no caminho pra casa.
Todo dia tem o mesmo gosto de dia cinza.
Gosto de nada.
A vida passa diante dos olhos. Só passa.
Sorriso de dentes.
É insuperável, por mais que tente...
E é inútil machucar os tornozelos.
Parece que toda felicidade foi consumida na última porcaria que te consumiu. Nos consumiu.
Dez minutos passam com o peso de uma hora. E a hora de apagar nunca chega.
Mas não foi sempre assim. O maior desejo é rever a vida com os olhos doces de criança. E sorrir sem dentes.
Sem marcas.

[Amanda]

24 de mar. de 2010

fragmento de devaneio

"Boca que cala mil gritos todos os dias, garganta que coça na esperança de exprimir algum som.
estômago cheio de palavras engolidas, e memória que recorda cada sorriso que não ganhei.
Foda-se se eu não sei seguir as regras da boa felicidade, Foda-se não ser ágil o suficiente pra
fisgar outro coração. Foda-se se vai ser sempre assim e nunca muda o jeito de sorrir.
Foda-se se eu só queria fazer sentir.
Foda-se se foda-se."


[Amanda]

25 de fev. de 2010

Eu não sei mais o que dizer pra espelhar os tantos nós que se fazem debaixo dessa cabeleira vermelha.
Tão menos pra explicar o ritmo com que tem falhado esse peito tão novo de tempo mas tão velho de chagas.
Já não sei quantos passos meus joelhos suportam antes de estourar de vez, nem quantas palavras ainda precisam me mutilar pra que alguém perceba que elas realmente machucam.
Não sei quantos berros saíram daquela garganta antes que o último me acordasse. Nem quantas vezes meus olhos ainda vão se abrir quando a luz tomar conta de todo o quarto.
Não sei se sei ao certo o quanto quero... se quero.
nem se espero.

não sei,
já não mais.

[Amandando.]

24 de fev. de 2010

era pra ser.

não foi.

18 de fev. de 2010

fragmento de devaneio

"chega de ficar lembrando o que não esgotei. Já secou mesmo, e rosas secas só servem pra guardar no meio de livros que a gente esquece na estante. De preferência aqueles que a gente já leu, e, provavelmente, não vamos ler de novo. E, se por acaso um dia abrirmos, a rosa vai estar preta, desmanchando, e sem perfume algum."


[Martha]

15 de jan. de 2010

Amanda matutava:

"será que vai levar o mesmo longo tempo pra sorrir não só com dentes?
Pra cavar uma nova cova no meu peito onde caiba um coração?"

5 de jan. de 2010

Cansei do mesmo filme. Prefiro os mesmos curtas.

Court et sucré.