Fones de ouvido quase estourando. Na boca um chiclet, patins nos pés. Deslizando e cantando e mascando e embalando e cantando e mascando e mascando... Quase ainda manhã de sábado, as pessoas caminham pelo parque como de costume, com seus bones só de aba, garrafinhas de água na mão, pochetes esquisitas, shorts sport, tênis confortáveis e semblantes de pseudo-saudáveis-blasés ou sofridos fora de forma; andando alguns tantos pra aliviar a consciência depois de ter comido aquele BigMac com MilkShake de Ovomaltine na quarta-feira, como de costume.
Marta senta num dos bancos e observa o movimento. Os rostos são todos bem diferentes, normal da espécie humana, mas há algo de tão padrão na maioria, tão igual e seguido à risca, sem propósito, talvez sem se darem conta, algo que os torna uno, algo que fazem questão de continuar cultivando pra que se tornem cada vez mais IMpessoais: algo como não ter muito de pessoal, de particular, de personalidade, de diferente... Tentar incorporar um estereótipo que faz sucesso com o mundo pra ter mais chances de fazer sucesso também, ainda que se trate de algo cada vez mais 'casca'. Incorporar um estereótipo que todo mundo conheça, pra ser, de certa forma, pré-conhecido. Ser algo simples pras pessoas não cansarem de você, pra ter certeza que suas idéias vão de acordo com as de todo mundo e por isso não vai ser criticado. Pra não ter de defender algo diferente e ser constestado e não ser aceito. Medo. Medo de não fazer parte de um grupo grande, pra se sentir mais seguro, tipo cardume de peixes, manada de elefantes, mesmo que pra isso tenha que negar vontades próprias. Reproduz-se então o "sucesso-social-padronizado": consumir as mesmas roupas, comidas, shampoos, bonés só de aba, shorts sports; frequentar os lugares onde vendam essas coisas pra exibí-las aos outros humaninhos que certamente comprarão e se sentirão muito felizes por tê-las iguais a muitos outros, e quem os inspirou, depois de ser inspirado pelo outdoor, também vai ficar felizíssimo por ter feito sucesso com seu rayban quadriculado conseguindo disseminar seu uso. Você consome o sucesso e faz parte dele, tem seu lugar garantido nessa sociedade.
Marta olha pra seu short jeanz que antes era uma calça, cortado com faca, sem bainha. Seu patins conseguido num brechó, o walkman (quem ainda usa walkman?), o chiclet já não tem gosto. Embala as rodinhas e abandona o banco e seus pensamentos sem sucesso, feliz por não ser popular, por não ter um rayban nem um short sport pra caminhar no parque, feliz por parar no parque e pensar, ao invés de contar os passos enquanto no inconsciente ecoa a musiquinha irritante daquela propaganda de porcarias comestíveis de sucesso.
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