28 de abr. de 2010

monólogo de um adultério

deixa eu te sussurrar uma coisa no ouvido:
ontem não faz tanto tempo assim.

Pela manhã foi tão bonito. O sol nascia, a brisa ainda gelada que sobreviveu da madrugada sendo aquecida pelos primeiros raios... Já no almoço te acertava em cheio e queimava a pele o sol da zenite. Ah, meu bem... pela tarde tomavas o café pra não fazer desfeita, disfarçando já ter comido na rua sem passar direto pela mesa posta. Pela noite não te via mais... Tão distante, teus olhos em outro céu que não aquele pra onde apontavam. Desprezei teu querer cerrar os lábios pra não dizer que a madrugada é que te faz bem, e já era noite de novo. Odiei você planejar sua próxima madrugada na nossa tarde, tomar aquele café com a barriga cheia. E ainda assim sorrir pra mim.
E ainda assim sorrir.
E hoje você me fita como quem diz que sente falta da maldita brisa.
Vá pro inferno com aquele café cheio de açucar que você tomou na rua.

~[Maria.]

23 de abr. de 2010

Eu não sei porquê.

hoje nada parece querer atingir o meu sorriso.
Sensação estranha, diferente. Sem peso nos joelhos...
Como se eu estivesse na calmaria de uma bolha enquanto o mundo se destrói lá fora. Nada quebra o silêncio aqui.
Não sei que parte de mim perdi por aí - e nem quero saber - sinto bem melhor assim.
Até senti medo, por um breve momento - tempo de um devaneio passageiro - pensando ser isso um tipo de transe que se tem quando se sabe que vai morrer. Não aceitei a idéia. Perturbava a calmaria.
Meus braços tremem. Não sei se do frio que espelham essas paredes cor de gelo ou se existe algum outro motivo pra isso. Não sinto frio.
Sinto um abraço, mesmo sem ninguém por perto. Em todos os sentidos.
Sinto cheiro de flor, sinto cheiro de dia ensolarado, mesmo com o tempo feio. E um gosto doce na boca.
Não usei nenhuma droga. Dessa vez, não.
Ostento no rosto um sorriso leve, como fosse espelho do meu todo.
Um pós-orgasmo-sem-fim. Tão igual que ainda sinto os espamos das minhas pernas.
Um dia cinza sem gosto de cinza. Chove, venta, escurece o céu... e isso tudo me faz bem.
Não sei se acordo amanhã sentindo o mesmo.
Sei que vou lembrar de um dia na minha vida em que o incômodo não se fez presente. Existi confortável, e talvez seja por isso que muitas pessoas gastam seus sorrisos por aí, e eu nunca compreendi. Mas sinto como se fosse só meu, inexplicável por completo e ninguém mais fosse capaz de sentir assim.
Vontade de acordar amanhã, e depois, só pra sentir igual.
Sem ninguém, nem nada.

12 de abr. de 2010

Carta -suidaci- do conto - sem nome ainda -

Minha Amada:

(...)


Dio suici.

Soui dici.

Dusi icío.

Cuido isi.

Dois uicí.

Dois ciuí.

Sici do iu.

11 de abr. de 2010

- Tick tack tick tack tick tack - cantarola docemente Amanda, com a intenção de tirar da cama seu amado.
- A gente vai se atrasar pro ensaio. Dois espetáculos hoje e temos que ver o que há de errado com seu trapézio!
Amanda escova os dentes, arruma o cabelo; com um passo curto está na cozinha, fazendo o café. Da pia vê a cama - típica kitinet - e ele ainda não se levantou. Vai abrir a geladeira e se depara com um bilhete preso a um ímã. Lê em voz alta:
- "Minha Amada" - já te falei que adoro quando você se declara pra mim? Preciso ouvir essas coisas de vez em quando, nossa vida é tão corrida... - se debruça no balcão entre a cozinha e o 'quarto' - Nos dividimos em cem pra dar conta de sustentar essa vida que a gente escolheu. Mas me faz feliz, sabia?
Volta ao bilhete:

[depois termino]

7 de abr. de 2010

Verônica decidiu e morreu pela décima sétima vez

em seu décimo sétimo outono.
sem remorsos, sem legados, sem fome, sem frio.
De dor, rancor. Sozinha.
Na meia luz da sala de estar. Entre os livros do seu pai.
Pensando ser errado dizer que Verônica morreu se ela nem
estava ali. "Seu corpo gélido deixou de respirar", seria
o mais certo a se dizer.
Morte 'assassina' que se deu aos poucos. Primeiro persona,
ideais; em seguida amigos, logo depois o amante, e, por
fim, asfixia seu corpo álgido.
"Vai ver, morreu de vez". Mas seus discípulos ainda esperam
a ressureição ao terceiro dia, a subida aos céus e o jantar
a dois com deus pai todo poderoso.
Mas a cor esvaeceu há tempos... Nem mais o vermelho das unhas
durava mais de um dia. O verde dos olhos já não mais refletia
o prisma. Nem sequer o abraço ansiado por tantas luas aquecia
seu corpo frio. Já sem pulso. Morreu de vez sem nada de mais
matar que já não tivesse morrido antes, vítima de causa qualquer.
Agora jaz, (s)em paz.
Há de servir como adubo às margaridas, quem sabe. Lindos lírios ou
pés de cegueira. Sendo assim se não estéril. Mas, do contrário,
ao menos servirá de café da manhã aos vermes. Perpetuando livre
de ter morrido em vão.
Descansando (s)em paz.